Nada do que foi será
As estantes enferrujadas envergavam com a densidade dos livros, capas moles, folhas meio amarelas e pouca gente em volta. Só tinha eu e o bibliotecário naquele prédio velho em uma cidade na zona leste de São Paulo. Fui uma criança solitária.
Teve um certo tempo da vida em que torcia para a luz acabar, como se respirar só fosse possível sem todo aqueles apetrechos tecnológicos circundando o mundo. Nasci com os olhos numa tela velha de computador.
Minha tia dizia que meu descontrole era com livro, sempre achei que lia pouquíssimo. Foi assim que levei boa parte do tempo, que das amizades fiz pactos de empréstimos, que me ancorei pelo fio da curiosidade. Ela tinha razão. Imagina perder todas aquelas palavras. Desconhecidas e conhecidas. Vistas de outro jeito, com perspectiva que transforma uma memória. Música, filme, seriado. Clipe, vídeo, novela.
Vezes sem conta jurei não escrever outro túmulo, mal sabia, mal sei, que essa impossibilidade é uma doença autoimune, como as dores que sinto quando engulo algum estresse. O ofício da escrita me adoece, de um jeito ou de outro. Melhor, então, me enterrar de carne, osso e pele enquanto ainda há tempo.
Qual é o medo que me afasta do que morreu? Será que não sou, eu mesma, alguém que morrerá? Meu medo é de esquecer, de ter passado pelas lombadas para sair sem arranhão. De ter que experienciar a vida, com ineditismo, sem dor ou incômodo algum. Tenho dificuldade de separar e parte do todo, sempre tive, então todos os meus contrapontos ficam no extremo de um cabo de aço, rangendo e cortando tudo.
Aos 14, prendi-me, fervorosa, a uma imagem de Deus que só Alberto Caeiro entenderia, foi bem assim que fiquei menos sozinha. Aos 22, descobri Phillip Dick, pendurada pelo pescoço pelo medo da loucura. Aos 24, finalmente, fui parar no colo de Elena Ferrante e olhei Lila e Lenú nos olhos, pelo espelho.
Vira e mexe esqueço dessas manobras e fico sozinha do mesmo jeito. Há algo na memória que espirala por entre as mentiras, por vezes cede. O enfraquecimento, o resultado ralo de viver com escudo furado pensando estar atrás de uma parede de titânio. Ensino emoções e preciso que ensinem a mim as minhas, nada disso faz sentido, tão esfarelada que preciso de metade da semana para recompor o que a primeira metade destruiu sem muito custo. Das enchentes que empurraram todas as épocas marcadas por um sentimento castrador de “nunca mais”. Dos aniversários, natais e carnavais que perderam a graça. Do que preciso escrever, preciso, se não morro. Do que preciso escrever para não perder de vez.
Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Tudo muda. O tempo todo.

